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O Cinema da Boca do Lixo
Publicada em: 11/06/2004

A chamada "Boca do Lixo" é uma área entre as ruas do Triumpho e Vitória, no bairro da Luz, em São Paulo, que durante décadas concentrou grande parte da atividade cinematográfica paulistana. O nome veio das páginas policiais e ficou consagrado com "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla.

Nos anos 50 e 60, a Boca do Lixo concentrava várias distribuidoras, estrategicamente situadas nos arredores da estação ferroviária de onde os rolos iam para o interior do Estado. De meados dos anos 60 até o final dos anos 80, a Boca testemunhou a maior movimentação da indústria cinematográfica do Brasil. Filmes baratos e rápidos, feitos com investimento privado e atendendo à lei de obrigatoriedade de filmes brasileiros em cartaz. Um investimento de risco, que dependia das oscilações do mercado e da receptividade do público. O ápice da produção ocorreu de 1972 a 1982, época em que o Bar Soberano servia de ponto de parada obrigatório para as equipes.

Em pouco tempo, criou-se um gênero, a pornochanchada (comédias populares e de sabor erótico), e uma espécie de "star system", com nomes como Aldine Müller e Matilde Mastrangi. Esse esquema de produção totalizaria 700 filmes e duraria até a crise econômica dos anos 80, quando o público deixou de freqüentar as salas e a Boca sobreviveu realizando filmes de sexo explícito. Mas, em seus tempos áureos, a Boca era muito mais que apenas a pornochanchada, e a prova está em "O Cinema da Boca do Lixo - A Produção de A. P. Galante", mostra em comemoração aos 50 anos de cinema do produtor Antonio Polo Galante.

Galante começou como faxineiro nos Estúdios Maristela. Passou a ajudante geral, contra-regra, assistente de câmera... Fez de tudo um pouco até chegar a produtor. Seu primeiro sucesso ocorreu quando, junto com o montador Sylvio Renoldi, ele comprou "Eróticas", um filme inacabado, começado em 1962 por Ody Fraga. Eles o finalizaram, introduzindo vários minutos de mulheres fazendo strip-tease, e o lançaram em 1968 com o título de "Vidas Nuas". O resultado: um milhão e meio de espectadores.

Mas Galante não produziu apenas filmes eróticos. Como produtor ou colaborando na finalização, seu nome está em clássicos do cinema marginal ("O Pornógrafo", de João Callegaro), em filmes autorais ("Convite ao Prazer", de Walter Hugo Khouri), em filmes de jovens cineastas ("A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla e "Império do Desejo", de Carlos Reichenbach). Aproximou-se do Cinema Novo com de David Neves, e também fez filmes em episódios, como "As Safadas" (com um dos episódios, "Aula de Sanfona", dirigido pelo hoje crítico de cinema Inácio Araújo). Além disso, Galante produziu vários filmes para seu diretor de confiança Osvaldo de Oliveira (ou Osvaldo "Carcaça", como era conhecido nos tempos da Boca), filmes de cangaço, terror, faroeste, comédia musical caipira, uma série de filmes de presídio, filmes experimentais... A produção diversificada e a rapidez com que tocava as filmagens garantiram a Galante o apelido de "o Roger Corman brasileiro". Sua mais recente (e comercialmente fracassada) produção foi "Cinderela Baiana", com Carla Perez, um típico "filme de ocasião" (especialidade de Galante), tentando aproveitar o sucesso da dançarina.

A mostra "O Cinema da Boca do Lixo - A Produção de A. P. Galante" acontece no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo de 8 a 20 de junho. Na programação, 16 longas e um média-metragem produzidos por Galante, além de três curtas-metragens sobre a Boca do Lixo, dirigidos e produzidos por Ozualdo Candeias e também o documentário "O Galante Rei da Boca", de Alessandro Gamo e Luis Rocha Melo.

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