
A expressão "cinema de poesia" foi usada pela primeira vez em uma conferência do cineasta Pier Paolo Pasolini, depois publicada no livro "Empirismo Herege". Em simples, ele dizia que, assim como na literatura, o cinema possui várias formas de expressão, sendo que uma mais "convencional" seria a prosa (o cinema narrativo, que se preocupa em contar histórias e apresentar os acontecimentos da trama em ordem lógica, observando relações de causa e efeito). Na prosa, o importante é o tema, o objeto, aquilo que está sendo mostrado. Por outro lado, na poesia, não importa tanto o que se fala, mas "como" se fala. O estilo se torna protagonista, e as escolhas do realizador (seja ele poeta ou diretor de cinema) ficam mais evidentes ao espectador, apesar de seus significados permanecerem mais abertos ou até misteriosos.
De 4 a 16 de maio, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresenta a mostra "Cinema de Prosa versus Cinema de Poesia", com alguns exemplos desses "outros" cinemas, normalmente aprisionados sob alcunhas, que pouco ou nada dizem - como "cinema de arte", por exemplo. Todo cinema, seja ele poesia ou prosa, é uma manifestação artística. O que a mostra tenta representar é modo que o conceito de Pasolini se desenvolveu no tempo, exibindo trabalhos de cineastas, desde Roberto Rossellini - que com seu "Roma, Cidade Aberta", em 1945, inaugurou o neo-realismo e, conseqüentemente, todo o cinema moderno - até Jean-Luc Godard ("Alphaville"), o próprio Pasolini ("Accatone"), Eric Rohmer ("O Signo do Leão"), Bernardo Bertolucci ("O Conformista") e Marco Bellocchio ("De Punhos Cerrados").

Também estão presentes o curta-metragem surrealista que Luis Buñuel filmou com Salvador Dalí, "Um Cão Andaluz", e alguns dos nomes mais significativos do período de experimentação que marcou a Europa dos anos 20 e 30, momento de afirmação de várias vanguardas estéticas: Sergei Eisenstein ("Outubro"), Carl Th. Dreyer ("Vampiro"), o documentarista Robert Flaherty ("O Homem de Aran") e Jean Vigo ("O Atalante").
Mas o grande destaque fica para os dois filmes brasileiros da mostra: "Limite", filme de Mario Peixoto realizado em 1931, é exibido numa cópia em película. O filme é uma espécie de marco do cinema de poesia no Brasil, com suas imagens oníricas admiravelmente fotografadas por Edgar Brazil. Além disso, o filme ficou muito tempo afastado das salas de exibição, tornando-se uma espécie de mito, antes de ser resgatado nos anos 70.
O outro destaque é "Cabezas Cortadas", de Glauber Rocha, realizado em 1970 e nunca lançado comercialmente em São Paulo. O filme foi produzido na Espanha, durante o exílio de Glauber, e sua cópia está disponível na mostra, falado na língua local, não possui legendas. Mas as imagens que Glauber compõe, tentando recuperar uma dimensão mítica e popular da cultura, falam por si, marcando também o início da última fase do diretor, caracterizada por uma grande liberdade formal e filmes com uma presença cada vez maior de um sentido de religiosidade e misticismo.
A mostra no CCBB é importante para reacender a discussão sobre as ilimitadas possibilidades expressivas do cinema, um veículo que normalmente vive sob a pressão da cultura de massas e suas fórmulas prontas de sucesso. A curadoria de "Cinema de Prosa X Cinema de Poesia" ficou a cargo do cineasta Joel Pizzini, autor dos curtas "Caramujo-Flor" e "O Enigma de Um Dia", exemplos de vitalidade do cinema de poesia brasileiro neste momento de "retomada" de público. Para estimular ainda mais a discussão e o debate, o catálogo da mostra reproduz o texto "O Cinema de Poesia" de Pasolini, publicado no Brasil apenas na Revista Civilização Brasileira, no longínquo ano de 1966.
Centro Cultural Banco do Brasil
http://www.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr/sp/index.jsp
Pier Paolo Pasolini
http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/02/pasolini.html
Joel Pizzini
http://www.portacurtas.com.br/buscaficha.asp?Diret=455