DOCUMENTAÇÃO ORAL

Entrevistas realizadas por Sônia Maria de Freitas e Wanda Maleronka, gravadas no Museu da Imigração para a Exposição “Mãos Que Trabalham: artes e ofícios femininos”.


Madame Georgina de Andrade Nadaline
Depoimento do dia 27 de outubro de 1998

Nasceu em Santos, descendente de pais portugueses. Seu pai, proprietário de um armazém, sempre trabalhou por conta própria.
O sonho de Georgina era ser costureira, mas, na época, essa não era uma profissão bem vista e seu pai desejava que ela se tornasse contadora para trabalhar no armazém.
Ao completar 15 anos de idade, pediu de presente uma máquina de costura. Seu pai deu-lhe uns brincos de ouro e, depois, a máquina Singer em que começou a costurar.
Em 1930, casou e passou a ter aulas de costura. Um dia pediu ao seu marido para comprar um sapato para o filho. Mas ele não tinha dinheiro. Então, pediu à sua professora de corte e costura para cortar modelos que começaria a costurar para fora. Isso aconteceu durante 3 meses. Depois ela mesma passou a cortar e a costurar. E começou a confeccionar vestidos de noiva.
A clientela cresceu e Georgina montou um ateliê. Chegou a ter até 40 ajudantes, sempre trabalhando com a alta costura. Entretanto, há um ano o ateliê (então com 15 ajudantes) foi fechado.
A hierarquia no ateliê era a seguinte: ½ ajudante (crianças que não tinham onde ficar, então ficavam no ateliê aprendendo a costurar a pedido de suas mães); 1ª ajudante; 2ª ajudante; 1ª costureira; 2ª costureira; e contramestre (que ajudava nas provas)
Georgina tem o dom de saber qual o modelo adequado para cada pessoa. Costurou para muitas pessoas famosas e trabalhava apenas com tecidos importados. Uma vez por ano, ganhava um convite de uma conhecida jornalista brasileira para assistir aos desfiles de moda na Europa, porque no Brasil não havia desfiles de alta costura, apenas de confecções.
Seu marido, antes de falecer, disse: "Georgina, eu tenho orgulho de você".
Atualmente ela ainda costura e sente-se realizada.


Romilda Vidal Melhado
Depoimento do dia 28 de outubro de 1998

Nasceu no dia 29 de setembro de 1929, no Ipiranga, bairro sírio da capital paulista. Sua ascendência paterna é espanhola e materna é brasileira.
Seu pai veio para o Brasil porque a Espanha estava em guerra com o Marrocos e seu avô teve medo de perder os cinco filhos que tinha. Chegaram no Porto de Santos e de lá foram para Rio Claro, onde trabalharam para os fundadores da Antarctica. Depois vieram para São Paulo trabalhar na indústria Jafé onde conheceu sua mulher. Permaneceu naquela indústria por 35 anos e lá aposentou-se. Ele também era músico e tocava em bandas e circos. Trabalhava na indústria, das 6h30 às 17h30, e, com os ensaios após o trabalho, voltava para casa entre 23h30 e 24h00.
Sua mãe sempre trabalhou na indústria e não dava incentivo aos seus estudos. Romilda foi criada para ser dona de casa e fez curso de corte e costura, aprendendo a técnica do corte francês - corte geométrico exatamente na medida do corpo, que necessita no máximo de duas provas. Teve uma professora muito rígida e começou a trabalhar como costureira, complementando a renda da família (muitas vezes, chegava ganhar mais que seu pai).
A rotina de Romilda era casa, trabalho e igreja. Às vezes ia ao cinema.
Conheceu seu marido no vai e vem de moças e rapazes nas ruas da Pompéia. Casou e foi morar nos fundos da casa de seus pais.
Continuou trabalhando com costura, tendo cerca de 130 freguesas, sempre trabalhou em casa sem ajudante e costurava muito.
A costura causou-lhe algumas seqüelas, como artrose, problemas nos dedos e na coluna.
Atualmente com 70 anos, ela ainda costura e faz cursos no Sesc - de natação e RPG -, além de ir a bailes e viajar com suas amigas.


Maria de Lourdes França Camargo
Depoimento do dia 20 de outubro de 1998

Nasceu no dia 30 de novembro de 1921 em Itapira, cidade próxima a Campinas.
Seu pai era alfaiate e sua mãe costurava. A avó e a bisavó também eram costureiras. Maria de Lourdes, muito amiga da mãe, não quis casar.
Na época em que era jovem havia o curso vocacional - as mulheres passavam cerca de 3 meses costurando, bordando, cozinhando e fazendo chapéus, para descobrir quais eram suas vocações. Depois cada uma se especializava na área adequada.
Maria de Lourdes começou a fazer o curso de costura, mas não foi possível terminar porque seu pai precisava de ajuda na alfaiataria, onde costurava blazers para ternos masculinos. Mas ela enjoou do serviço e passou a costurar para mulheres. Costurava roupas simples, vestidos de noivas, vestidos de madrinhas e de mães de noivas. Seus modelos eram baseados em revistas alemãs e americanas. No final de ano, havia muita costura porque naquela época não existiam lojas de roupas prontas. Com o aumento da clientela, seu pai começou a ajudá-la e ambos costuravam a noite inteira até amanhecer.
Maria de Lourdes não saía muito de casa, de vez em quanto ia ao cinema, não gostava de cozinhar, sempre trabalhou como autônoma, gostava de ouvir rádio e sempre ia à igreja.
A costura deixou-lhe algumas seqüelas: sua vista esquerda é embaçada, ficou um pouco corcunda e tem varizes por ficar em pé para cortar os tecidos.
Atualmente com 78 anos, ela ainda costura por dois motivos: porque gosta muito e por necessidade, pois sua aposentadoria paga apenas o convênio de saúde e as contas de luz, água e telefone.


Karuo Yamada - Alice
Depoimento do dia 20 de outubro de 1998

Nasceu em 06 de junho de 1925, em Nakagawa, no Japão. Veio para o Brasil com 3 anos de idade, permanecendo em Aliança, no noroeste de São Paulo. Tinha dois irmão: um mais velho do que ela e outro mais novo, que faleceu com 19 anos. Estudou em uma escola que ensinava japonês e português.
Vivia na fazenda, onde estudava, trabalhava, plantava legumes, verduras, e frutas para a alimentação da família. Ia a festas e, de vez em quando, assistia a filmes no cinema (que na época era mudo). Depois que parou de estudar, começou a trabalhar na plantação de café.
Com 14 anos Alice veio para São Paulo (capital) fazer um curso, mas, com a morte de seu irmão, voltou para roça.
Seu pai estava cansado da lavoura e passou a trabalhar no comércio. Próximo do local onde moravam, havia uma professora de costura que passou a ensinar o ofício para Alice. Esta começou fazendo montagem e acabamento, depois costurou para uma vizinha, para outra e assim cresceu a sua freguesia. Precisou contratar uma ajudante e uma empregada doméstica. Fez muitas amizades com as freguesas.
Em 1955, casou e continuou a costurar para fora, obtendo o próprio dinheiro.
Atualmente, Alice, com 74 anos, não costura pois tem problemas de visão.


Ephifania Lauria
Depoimento do dia 06 de outubro de 1998

Nasceu em 06 de janeiro de 1921, no Cambuci, em São Paulo. De ascendência italiana, sua infância foi muito rica, até a crise de 1928/29. Sempre gostou muito de moda e em seu primeiro emprego foi aprendiz de chapéu (não recebia nada, apenas aprendia). Trabalhou na Liberdade, na Barão de Itapetininga, onde havia as chapelarias elegantes da época. Trabalhou também em lojas de calçados, de blusas finas e de grinaldas. Sempre foi muito determinada e gostava muito de chapéus. Trabalhava na chapelaria e em casa, juntamente com a irmã, que ajudava no atendimento, e com o irmão, que auxiliava nas compras. Nunca teve ajudante, sempre exigia perfeição e ganhou muito dinheiro fazendo chapéus.
Fez chapéus para consulesas da França, de Israel e para muitos desfiles. Baseava seus chapéus em figurinos franceses que eram vendidos na Praça da República, mas não copiava por inteiro sempre adaptava-os ao rosto da cliente. Sua especialidade era o chapéu de palha costurada. Utilizava apenas materiais importados porque no Brasil não havia bons materiais.
Naquele tempo, mesmo as pessoas simples vestiam-se bem e o chapéu era uma peça fundamental. Na década de 70, os chapéus caíram de moda. Ephifania começou então a confeccionar grinaldas, mas continuou fazendo chapéus. No mês de maio havia um grande movimento por ser o mês das noivas. Mas houve uma queda no movimento em maio quando as mulheres passaram a entrar na faculdade e os casamentos foram transferidos para julho.
Ephifania usou chapéu apenas duas vezes em casamentos de suas gerentes. Com seu trabalho conseguiu ganhar muito dinheiro e comprou dois apartamentos à prestação.
Em 1993, parou de trabalhar e de fazer chapéus porque os impostos eram muito altos e não conseguia pagá-los.
Atualmente, é a única que ainda vive de sua família. Aos 78 anos, ela sofre de dores na coluna por ter costurado chapéus durante tantos anos.