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Os cybermanos

Jovens pobres que imitam os clubbers ricos formam a nova tribo da periferia de São Paulo

Celso Masson.

Cybers de Campo Limpo: infundindo cor a um cotidiano cinzento

Depois dos punks, dos skinheads e da galera do hip hop, uma nova tribo irrompe na periferia de São Paulo. São os cybermanos, adolescentes que usam cabelos coloridíssimos, piercings e figurinos em que predominam lentes de contato estampadas e acessórios dos mais estrambóticos. O visual é uma versão esquálida do de outra turma: a dos clubbers, aquela gente da classe média que gasta a mesada dançando ao som de música eletrônica e se vestindo como alienígenas da série Perdidos no Espaço. Foram os mauricinhos do bate-estaca, aliás, que inventaram o nome para designar os "manos" pobres que invadiram sua praia (cyber vem do termo inglês para cibernética). São também os mauricinhos do bate-estaca a barrar muitas vezes o pessoal que viaja horas de trem e ônibus para chegar às casas noturnas que fazem parte do circuito do "babado", que é como os clubbers chamam a sua curtição. Quando não conseguem entrar, os coitados permanecem na porta até o amanhecer.

Ser um cybermano é basicamente tentar infundir cor a um cotidiano cinzento e sem perspectivas. Nem que para isso seja preciso gastar todo o salário. O mecânico de caminhões Edson Correa do Nascimento, mais conhecido como "Ratão", já chegou a torrar 600 reais num único mês para adquirir roupas de vinil, sapatos plataforma e bijuterias. "Comprar uns panos legais foi a maneira que encontrei para ser aceito pela elite que freqüenta os clubes da moda", diz Ratão, de 19 anos, que mora nos fundos de um bar da cidade de Jundiaí. Embora a noite nem sempre seja uma comunhão social, os cybermanos encaram as pistas de dança dos bacanas como uma espécie de refúgio lisérgico. Nelas não existe desemprego ou violência. Eles descobriram o mundinho principalmente pela televisão, quando começaram a pipocar videoclipes de conjuntos de música eletrônica. Só depois de adotar o visual extravagante e o som tecno é que os cybermanos resolveram ter uma "ideologia". Seu modo de pensar está resumido numa home page criada por Jorge Mascarenhas Coutinho, de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo: "Todo homem tem o direito de viver como quiser. De trabalhar. De brincar. De dançar quando quiser. De tatuar. De perfurar. E de vestir seu corpo como quiser".

Essa adaptação da declaração dos direitos do homem e do cidadão é também uma resposta aos inimigos figadais dos cybermanos, os skatistas. Volta e meia estoura a pancadaria entre as duas tribos – ou "tretas", para usar o jargão da moçada. "Já levei até garrafada", conta o metalúrgico Flávio Roberto Kuprian, cyber de 18 anos. As tretas são parecidas com os enfrentamentos entre as torcidas uniformizadas de dois times de futebol. Ninguém sabe muito bem por que está batendo ou apanhando. Se alguém perguntar a um skatista a razão de seu ódio pelos cybermanos, ele dirá que os inimigos são homossexuais e coisas que tais, em um discurso que beira o desconexo. Já um cybermano, quando indagado a respeito, responde que os skatistas são antidemocráticos. E tome pau.
Para se ter uma idéia de como as brigas andam quentes, no início de novembro onze adolescentes foram presos próximo a um ponto de encontro de cybermanos em São Paulo. Portavam bombas caseiras, um coquetel Molotov, rojões e um taco de beisebol. Na delegacia, disseram ser skatistas, e que estavam armados daquele jeito para se prevenir quanto a um possível encontro com integrantes da tribo rival. Pouco antes desse episódio, uma briga na mesma região terminou em quebra-quebra e arrastão. Os conflitos cada vez mais freqüentes têm levado muita gente a abrir mão do visual cyber e passar para o outro lado. Sim, porque os skatistas em geral levam a melhor quando o assunto é resolvido no muque.

A grande maioria dos cybermanos, no entanto, garante que a diversão compensa o risco. "Uma rave é uma experiência inesquecível", diz Júlio César, de 17 anos, ajudante-geral em uma fábrica de compensados. Ele se refere às festas que normalmente acontecem em chácaras, regadas a bebidas energizantes e sem hora para acabar. Júlio César tem uma razão suplementar para não renegar seus manos: o ibope com as garotas subiu desde que adotou o estilo cyber. Hoje, o rapaz usa um par de cadeados como brincos, piercing na língua, outro no queixo e mais um atravessando o antebraço. "Meu chefe não liga e minha mãe acha que está tudo bem, desde que eu não use drogas", diz.
Afora os skatistas, ninguém se incomoda com os cybermanos na periferia paulistana. Eles foram incorporados à paisagem, assim como todas as tribos que os antecederam. Recentemente, viraram tema de ensaio fotográfico numa edição dedicada ao Brasil da revista Big, badaladíssima publicação de Nova York que fala de moda, arte e comportamento. Esse fato deixou os clubbers mauricinhos morrendo de inveja. Mas fazer o quê? Enquanto o mundinho da classe média retratado nas colunas dos jornais é uma cópia desbotada do que acontece nos Estados Unidos e na Europa, os desprezados cybermanos conseguem ser um fenômeno original. Pobre querendo ser clubber é coisa que só existe no Brasil, um país aonde os modismos e movimentos juvenis costumam chegar com o sinal invertido. Na Inglaterra da década de 70, por exemplo, punks eram jovens da classe trabalhadora que usavam roupas estranhas e cabelos coloridos para protestar contra o sistema. Apesar de ouvir um som pesadíssimo, com letras cheias de vitupérios, eles eram pacifistas e anti-racistas – o contrário dos skinheads, a rapaziada careca que se vestia de preto e adorava esmurrar negros. Os punks deste lado do mundo, porém, se vestiam de roupas escuras, raspavam o cabelo e adoravam provocar brigas nas ruas. Estavam mais para skinheads.

 

Rivais de rodinhas

Fanta, com os amigos: cansado de levar a pior, o cyber resolveu mudar de lado. Virou skatista

Os inimigos dos cybermanos, os skatistas, não gostam de música eletrônica. Preferem rock e rap. Suas roupas, bem mais despojadas, resumem-se a camisetas e bermudões, tênis e boné. Eles são mais diurnos do que noturnos, embora façam incursões pelos clubes onde se dança até o sol raiar. Nas ruas próximas a ladeiras, onde deslizam nas pranchas com rodinhas, agem como se fossem os donos do pedaço. Homófobos empedernidos, eles consideram o visual esfuziante dos cybermanos pura provocação. "Já fugi de skatistas cinco vezes e numa ocasião acabei apanhando", diz Fernando Henrique Monteiro, de 18 anos, que costumava andar com os cybermanos de sua cidade, Várzea Paulista. Cansado de levar a pior, acabou mudando de lado. Embora não pinte mais o cabelo de laranja, Fernando continua a ter o mesmo apelido da época em que pertencia à outra turma – "Fanta". Nem todo skatista, porém, é metido a valentão. "Quem pratica o skate como esporte não fica arrumando confusão por aí", diz Reinaldo Caruso, redator de uma revista especializada no assunto.

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