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MODA COMO ESPETÁCULO: A MÍDIA
E OS DESFILES


2. Moda, espetáculos e performance

Para facilitar a compreensão de algumas das características deste novo ‘híbrido moda/performance’, vamos seguir o esquema de cinco categorias de desfile apresentado por Duggan: espetáculo, substância, ciência, estrutura e afirmação. Não é nossa intenção fornecer uma receita para que possamos, mais tarde, dividir cada desfile de moda em uma das categorias sugeridas. O papel deste artigo é o de apontar para características muito presentes na moda contemporânea que podem nos mostrar os caminhos possíveis de um futuro na Moda.

O Espetáculo

Os desfiles que se enquadram nesta categoria estão, segundo Duggan, muito próximos das representações performáticas de teatros, óperas e shows de música (2002: 5). Aqui, todos os elementos que integram a performance, isto é, os personagens (as modelos), a música selecionada, a locação, a iluminação, são todos essenciais para o sucesso do desfile, que só parece se diferenciar de uma peça teatral pelo seu objetivo maior que é o de lançar uma coleção de moda.

O aspecto mais evidente dos desfiles espetáculo é o efeito causado na audiência e, para isto, deve haver um tema central que dirija o estilo de todos os componentes do desfile, desde a maquiagem das modelos até o cenário escolhido. Os mínimos detalhes afetarão a percepção que a platéia terá do desfile como um todo. Por isso, os convites, material de divulgação, brindes e press release são feitos de acordo com o tema escolhido e formam um todo harmônico.

Este tipo de desfile costuma atrair a imprensa porque gera conceitos facilmente traduzíveis para as revistas de moda. Os encerramentos são o ápice do desfile e, muitas vezes, desviam a atenção para os aspectos comerciais do desfile, acentuando o lado fantasioso da criação de moda. Esses desfiles normalmente empregam uma mão de obra especializada e são caros. Duggan afirma que: ‘hoje em dia, não é difícil se ouvir que uma grande Maison, como Christian Dior ou Chanel, gastou cinco milhões de dólares num desfile que talvez dure só vinte minutos’ (2002: 9).

Já na década de 1930, a couturier Elsa Schiaparelli associava um tema a cada coleção lançada, o que era enfatizado pelos looks que apresentava e que tinham, quase sempre, um aspecto lúdico como principal característica. Estilistas contemporâneos que valem-se deste tipo de desfile que são verdadeiros ‘espetáculos de mídia’ mencionados pela autora são: Alexander McQueen e John Galliano, ambos as grandes celebridades da moda contemporânea.

Substância

Nesta categoria, os designers privilegiam o processo de criação em detrimento ao produto. A cada coleção, existe um conceito que norteia não apenas a fabricação da roupas, mas também a performance do desfile e tudo que estará envolvido nele. A diferença entre os desfiles de espetáculo e os de substância são os temas usados. Enquanto que para o espetáculo é mais desejável que se tenha um tema mais compreensível, lógico e de narrativa mais digerível, para desfiles de substância são escolhidos temas mais abstratos que não dependem de uma narrativa com início, meio e fim (2002: 11).

Designers de substância não estão muito atados às tendências de cada estação e não parecem precisar de novidades a cada coleção para atrair a atenção da mídia e do público especializado. Pelo contrário, esses designers contrariam as normas vigentes e procuram por caminhos alternativos, que fujam dos temas que certamente estarão presentes na maioria dos desfiles de determinada estação.

Principal motivação das criações dos designers conceituais são os cursos de Moda que se tornaram os principais fornecedores de novos nomes da Moda para o mercado. O ensino tem influenciado a maneira como os designers pensam e produzem suas coleções e, assim com a arte de jovens artistas, a moda tornou-se mais intelectualizada e, não raro, as roupas não refletem literalmente os temas, como acontece mais freqüentemente com os desfiles-espetáculo. Isto acontece porque as escolas de Moda têm dado mais ênfase à teoria do que à prática da envolvidas na criação de uma roupa.

Dois dos designers de substância citados por Duggan são Hussein Chalayan e a dupla Viktor & Rolf. Para a autora, ‘os designers de substância concentram-se em conceito, processo e ritual, investindo as roupas de um significado mais profundo’ (Duggan 2002: 15).

Ciência

Nesta categoria estão os designers que priorizam a tecnologia têxtil e as técnicas de construção das roupas. A ‘ciência dos materiais’ é o aspecto mais relevante no trabalho desses designers e sobressai ao espetáculo ou ao conceito como nas categorias anteriores. O processo físico, material associado ao trabalho de criação é reconhecido aqui como um dos aspectos fundamentais da Moda. Há, inclusive, um interesse mais evidente em se revelar a experimentação por trás do trabalho (Duggan 2002: 15).

A funcionalidade da roupa e dos materiais usados em sua fabricação é um outro aspecto relevante desta categoria, ou seja:

A função tem grande importância nestes trabalhos, com o estilista capacitando o cliente a transformar uma roupa em duas, estendendo seu envolvimento no processo além do comprar (Duggan, 2002: 15).

Issey Miyake, por exemplo, procurou destacar esses dois aspectos de seu trabalho, o da tecnologia e da função, através da exposição realizada na Foundation Cartier citada anteriormente. Em uma das salas da galeria de arte, Miyake projetou um filme em que mostrava uma peça que sofrera um banho químico em partes específicas para encolher, enquanto as demais partes, reservadas, permaneciam em tamanho original, ocasionando uma deformação no resultado final da roupa. É provável que muitos designers escondessem o processo de construção de uma peça de roupa, mas para designers de ciência como o japonês Issey Miyake, está justamente no processo de fabricação e uso de novas tecnologias o grande segredo da criação de uma moda singular.

Esta experimentação características de designers desta categoria é levada para os desfiles e, normalmente, o processo de criação é descrito ou exposto em sites e em material disponibilizado para a imprensa especializada. O uso da experimentação com tecnologia têxtil é um meio através do qual designers como Miyake e Junya Watanabe, também citado por Duggan, consegue se diferenciar entre seus pares e atrair a atenção da mídia. Como nos aponta a autora:

A cada avanço, designers como Miyake e Watanabe ajudam a estabelecer conexões que embaçam ainda mais as fronteiras entre arte, moda, arquitetura e design, pelo interencadeamento global (Duggan, 2002: 20).

Estrutura

Nesta categoria, a forma é mais importante do que a função, o espetáculo e, algumas vezes, é a própria forma que conceitualiza o desfile. Normalmente, a forma de apresentação das roupas em passarela é em fluxo, isto é, de uma maneira mais tradicional. Isto acontece para que os designers de estrutura passam dar ênfase às suas criações, ao design em detrimento do show. Para Duggan, ‘o designer de estrutura considera a forma tridimensional a mais representativa das idéias’ (2002: 20).

Não é raro que designers desta categoria procurem aproximar-se da linguagem do universo da arte. Isto pode acontecer de formas variadas, como, por exemplo, através do uso de fotografias ou projeções no lugar das roupas durante os desfiles. Outra forma de apropriação de elementos artísticos é a escolha por locações mais neutras e menos carregadas de adereços como acontece nos desfiles espetáculo. É comum ainda que esses designers tentem traduzir estilos artísticos preponderantes como o minimalismo ou o desconstrutivismo em suas criações (Duggan, 2002: 22).

Dois designers citados por Duggan como sendo de estrutura são Rei Kawakubo, da griffe Comme dês Garçons, e Martin Margiela. Ambos têm uma clientela mais ligada a atividades artísticas e culturais e são, por vezes, chamados de artistas da moda ou designers dedicados à arte vestível (wearable art).

Afirmação

Segundo Duggan, das cinco categorias apresentadas a de afirmação é a que mais se aproxima dos eventos e da arte performática da década de 1970 (2002: 23). Os desfiles de afirmação podem lembrar protestos públicos e são sempre carregados de uma mensagem de certa forma política ou ideológica. A maior preocupação de designers de afirmação está na mensagem a ser transmitida através do desfile, que passa a ser mais importante do que a forma das roupas apresentadas.

Há em geral um tipo de ‘missão controversa’ nos desfiles de afirmação. Designers podem, por exemplo, fazer um protesto contra a própria Moda ou contra a forma como a moda subjuga as pessoas ao consumo conspícuo. As performances adotadas nesses desfiles não são convencionais e, neste aspecto, a categoria afirmação aproxima-se mais da substância do que do espetáculo.

A atenção da mídia também á atraída para desfiles desta categoria especialmente porque há sempre uma expectativa de que haverá um ato performático agressivo ou de não-conformidade. Os desfiles de afirmação são particularmente atraentes para a mídia que lida com comportamento e vanguarda, como demonstrou Duggan:

‘ os designers de afirmação usam a roupa ou o desfile, ou uma combinação de ambos, como meio para expressar suas mensagens. Em muitos casos, é só o estardalhaço da mídia em torno dessas performances esotéricas que atrai compradores e outros profissionais da indústria, considerando que os eventos se dão principalmente em locais de difícil acesso’ (2002: 27).

A autora cita o designer Miguel Androver e as griffes Imitation of Christ e Red or Dead como sendo representantes da categoria afirmação.

Como vimos, a Moda contemporânea é a expressão não apenas de atividades mais recentes como a mercantilização de valores subjetivos ou as relações da moda com a arte de vanguarda, como as performances. Ela é o resultado de experiências novas com a herança de sua própria história que criou novas formas e hábitos de vestir de acordo com mudanças sociais e culturais ao longo do tempo.

A Moda não é estanque e convive hoje com elementos aparentemente tão distantes quanto cultura popular e alta tecnologia. Ela rompeu com as barreiras do puro consumo para se aproximar cada vez mais da vida cotidiana de milhares de pessoas. É através da Moda que alguns grupos musicais enfatizam suas mensagens. Idéias, fantasias, posicionamentos políticos ou mesmo ações solidárias têm buscado na Moda um aliado para atrair um contingente cada vez maior ao mesmo tempo que específico de pessoas que se sentem atraídos por ela.

Finalmente, a Moda contemporânea tem servido cada vez mais para um exercício singelo das subjetividades. Ela não serve apenas às determinações das tendências, mas ela tem sido usada como um caminho para exercitar os gostos e histórias pessoais, singulares. A variedade das formas de fabricação, comercialização e divulgação da Moda ,hoje, demonstra uma variedade nas percepções de designers, do mercado e dos consumidores do que representa compor um visual que não seja apenas esteticamente harmônico, mas que, sobretudo, seja transmissor de idéias, de mentalidades pessoais ou coletivas.

Esta disciplina procurou introduzir alguns dos elementos constituintes da Moda contemporânea demonstrando que ela não é uma seqüência de mudanças evolutivas e estéticas, mas sim um componente cultural que nos aproxima de nossos contemporâneos e de nós mesmos. Espero que através das breves pinceladas dadas a cada aula em Cultura de Moda, você possa ter vislumbrado um universo infinito de possibilidades para compreender melhor os percursos da Moda e perceber como o seu próprio trabalho poderá colaborar para enriquecer este universo fascinante.

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